Um espaço para médicos, estudantes de medicina e outros profissionais de saúde interessados em estudos nesta área.

Caros leitores,

A postagem sobre Vacina Pneumocócica 10 Valente (06/10/2009) gerou muitos questionamentos, que vem ao encontro do objetivo maior deste blog que é a troca de informações e a construção colaborativa de conhecimento.  Aproveito para agradecer imensamente a participação de todos!

Venho aqui, trazer algumas respostas às perguntas feitas, embora alguns hiatos ainda dependam de maiores esclarecimentos a serem disponibilizados pelo Ministério da Saúde. Segue o texto que elaborei após consulta a diferentes fontes.

PREVENÇÃO DAS INFECÇÕES PNEUMOCÓCICAS NO MUNDO E NO BRASIL

1. INTRODUÇÃO

O Streptococcus pneumoniae (pneumococo) é um agente infeccioso muito comum no mundo todo, responsável por elevada morbimortalidade, principalmente nos países em desenvolvimento.

Uma variedade de doenças é causada por este agente. As mais preocupantes são as chamadas doenças pneumocócicas invasivas (DPI), definidas como aquelas em que o pneumococo é identificado em sítios habitualmente estéreis. Entre elas estão: bacteremia, meningite, sepse, pneumonia bacterêmica/empiema, peritonite e artrite/osteomielite. Uma série de doenças não invasivas também são causadas por esta bactéria, como: otite média aguda (OMA), sinusite, conjuntivite e pneumonia.

Algumas pessoas são mais suscetíveis a infecções pneumocócicas invasivas:

  • Crianças menores de 5 anos;
  • Idosos (>65 anos);
  • Pessoas que apresentam comprometimento da resposta imune por doença congênita ou adquirida (incluindo portadores do HIV sintomáticos e assintomáticos) ou que estão em uso de tratamentos imunossupressores;
  • Portadores de asplenia anatômica ou funcional (inclui anemias hemolíticas, como anemia falciforme e espeferocitose);
  • Portadores de doenças crônicas (nefropatias, doenças cardiorrespiratórias, diabetes, alcoolismo, cirrose, asma, doenças de depósito e trissomias);
  • Indivíduos com fratura de crânio, fístula liquórica e submetidos a cirurgia de crânio, incluindo colocação de implante coclear;
  • Alguns grupos étnicos (índios Navajos, Apaches, nativos do Alasca e Austrália, raça negra);
  • Pessoas que vivem em ambientes aglomerados (creches, escolas) ou que têm contato com crianças;
  • Pessoas expostas à fumaça de cigarro;
  • Após infecções virais, paticularmente pós-influenza e infecção pelo vírus sincicial respiratório.

O pneumococo coloniza normalmente a nasofaringe de pessoas saudáveis e sua transmissão se dá de pessoa-a-pessoa, facilitada principalmente por contato íntimo, infecção respiratória viral e clima frio.

As infecções pneumocócicas habitualmente respondiam bem ao tratamento com penicilinas. Nos últimos anos, com frequências diferentes entre os diversos países do mundo, a taxa de cepas resistentes a este e outros antibióticos tem aumentado, se tornando uma preocupação mundial.

Estes fatos tornam a prevenção por vacinas uma medida muito importante no combate a este grande problema de saúde pública. Com a imunização, objetiva-se a redução das DPI e da colonização da nasofaringe por este agente.

2. PRINCIPAIS VACINAS PNEUMOCÓCICAS ATUALMENTE USADAS

2.1   – Vacina pneumocócica polissacarídica 23-valente: Esta vacina inclui antígenos de 23 sorotipos do pneumococo e evita cerca de 90% das DPI mundialmente. Entretanto, não é administrada em crianças menores de 2 anos devido à sua limitada imunogenicidade nesta faixa etária. As vacinas imunogênicas para menores de 2 anos são as vacinas pneumocócicas conjugadas.

2.2   -  Vacina Pneumocócica Conjugada 7 Valente (Prevenar®): É produzida pelo laboratório Wyeth® e contém os sorotipos 4, 6B, 9V, 14, 18C, 19F e 23F conjugados com uma mutante da toxina diftérica, a proteína CRM197.

Dos mais de 90 sorotipos de Streptococcus pneumoniae os 7 incluídos na vacina pneumocócica conjugada hepta-valente (VPC 7) eram os responsáveis por aproximadamente 85% das DPI em crianças dos EUA antes de sua inclusão no calendário básico de vacinação daquele país, em 2000.

 É uma vacina indicada para crianças entre 2 e 60 meses, por via intramuscular, sendo administrada simultaneamente com outras vacinas do calendário. O número de doses varia com a idade do início do esquema:

ü  Primeira dose de 2 a 6 meses: série primária de 3 doses e 1 dose adicional entre 12 e 15 meses.

ü  Primeira dose de 7 a 11 meses: série primária de 2 doses e 1 dose adicional, entre 12 e 15 meses.

ü  Primeira dose de 12 a 23 meses: 2 doses.

ü  Primeira dose de 2 a 5 anos, em crianças saudáveis de creches: 1 dose.

ü  Primeira dose de 2 a 5 anos, em crianças de risco: 2 doses.

No primeiro ano de vida o intervalo mínimo entre as doses é de 4 semanas. Após os 12 meses e entre as doses adicionais, o intervalo mínimo entre as doses é de 2 meses.

2.3   – Vacina Pneumocócica Conjugada 13–valente (VPC 13): Depois da administração de rotina da VPC 7 nos EUA, a DPI em crianças menores de 5 anos diminuiu cerca de 76%, no entanto, infecções por outros sorotipos não cobertos pela VPC 7, têm ocorrido, particularmente pelo sorotipo 19A. Em fevereiro de 2010, esta nova vacina, 13 valente, foi licenciada nos Estados Unidos. A VPC 13 contém, além dos 7 sorotipos da VPC 7 (4, 6B, 9C, 14, 18C, 19F e 23F), seis outros antígenos, inclusive o 19A. Os seis são: 1, 3, 5, 6A, 7F e 19A. Esta vacina, então, está substituindo a VPC 7 no calendário básico daquele país.

2.4   – Vacina Pneumocócica Conjugada 10-valente (Synflorix®): Esta vacina, não disponível nos EUA, foi licenciada em mais de 40 países, incluindo a Europa, para prevenção da DPI e de otite média aguda (OMA). Além dos sorotipos da VPC7 ela inclui antígenos dos sorotipos 1, 5 e 7F.

A proteína D, de Haemophilus influenzae não tipável, é a proteína carreadora de 8 sorotipos desta vacina, enquanto a toxina tetânica e diftérica são carreadoras dos outros 2 sorotipos. Assim, estima-se que esta vacina também possa ter impacto na prevenção de OMA por Haemophilus não tipáveis.

Com esquema de administração semelhante ao da VCP7, esta vacina pode ser administrada concomitantemente com outras rotineiramente usadas e mostrou-se imunogênica, segura e bem tolerada pelas crianças.

3. VACINAÇÃO PNEUMOCÓCICA NO BRASIL

A vacina pneumocócica 23 valente tem sido administrada em idosos, em campanhas. Além deste grupo, a vacina 23 valente, para maiores de 2 anos, e a vacina pneumocócica conjugada 7 valente, para crianças menores de 2 anos, estão disponíveis nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) quando há indicações específicas, tais quais:

- HIV/aids;

- Asplenia anatômica ou funcional e doenças relacionadas;

- Pneumopatias crônicas, exceto asma;

- Asma grave em usos de corticóide em dose imunossupressora;

- Cardiopatias crônicas;

- Nefropatias crônicas / hemodiálise / síndrome nefrótica;

- Transplantados de órgãos sólidos ou medula óssea;

- Imunodeficiência devido a câncer ou imunossupressão terapêutica;

- Diabetes mellitus;

- Fístula liquórica;

- Fibrose cística (mucoviscidose);

- Doenças neurológicas crônicas incapacitantes;

- Implante de cóclea;

- Trissomias;

- Imunodeficiências congênitas;

- Hepatopatias crônicas;

- Doenças de depósito.

- Crianças menores de 1 ano de idade nascidas com menos de 35 semanas de gestação e submetidas a assistência respiratória (CPAP ou ventilação mecânica).

Obs. Nos casos de esplenectomia eletiva, a vacina deve ser aplicada pelo menos 2 semanas antes da cirurgia. Em casos de quimioterapia, a vacina deve ser aplicada preferencialmente 15 dias antes do início da quimioterapia (QT).

Para maiores detalhes, como composição destas vacinas e esquema vacinal clique aqui.

A grande novidade para 2010 é a introdução da vacina pneumocócica 10 valente no calendário básico de vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS).

Desenvolvida pelo laboratório Glaxo SmithKline® (GSK), ela vem sendo produzida no Brasil no Biomanguinhos, Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da FIOCRUZ. A parceria entre a Fiocruz e a GSK foi anunciada pelo Ministério da Saúde em agosto de 2009.

Nos primeiros 12 meses após a implementação, a nova vacina será aplicada em crianças menores de dois anos de idade. A partir de 2011, elas farão parte do calendário básico de vacinação da criança específico para os menores de um ano.

A expectativa é que, a cada ano, pelo menos 1500 mortes de crianças menores de 5 anos sejam evitadas no Brasil após a introdução desta vacina no calendário básico de imunizações. Esta ação faz parte das medidas para se atingir as metas da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2012, visando a redução da mortalidade infantil.

AGRADECIMENTOS: Agradeço aos amigos e parceiros de luta: Dr Márcio Nehab, infectologista pediátrico, preceptor da residência médica do Instituto Fernandes Figueira (IFF), e Lúcia Martins de Magalhães Pierantoni, enfermeira pediátrica do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE)/UERJ, pelo fornecimento de referências bibliográficas que foram fundamentais para a elaboração deste texto.

Links úteis sobre este tema:

Comentários em: "Vacina Pneumocócica 10 valente: tentando trazer respostas" (8)

  1. MARCELA VITORINO disse:

    Boa noite.

    Tenho uma filha de 2 meses e tenho gostaria de saber se é necessária a aplicação tanto da prevenar (VCP 7)quanto da VCP 10 ou apenas a aplicação de uma das duas vacinas será suficiente. As duas vacinas são complementares?

    Obrigada.

    Marcela Vitorino

    • pneumoped disse:

      Marcela,
      Você pode completar o esquema com vacina 10 valente.
      Ela inclui proteção contra mais 3 tipos de pneumococo do que a 7 valente

  2. Fausto disse:

    meu filho também tomou a vacina com 2 4 e 6 meses em clinica particular,sendo sempre a 7 valente…também estou na duvida se possar dar o reforço de 15 meses no posto(10 valente) ou faço a prevenar 7 novamente particular?

    • pneumoped disse:

      Pode fazer reforço com a 10 valente, no posto de saúde, Fausto.

  3. Se a cça toma uma dose de pneumo 7 particular, com idade de 20 meses precisa tomar uma segunda dose?Se puder pode ser a pneumo 10?
    grata
    Rosana

  4. fabiola disse:

    meu filho tomou a pneumo10 no posto com 2,4 meses e agora chegou no particular a 13, posso dar a terceira dose e o reforço com a 13? se puderem por gentileza me respondam o mais rapido possível pois preciso dar a vacina daqui 12 dias e estou em dúvida, embora meu pediatra tenha me esclarecido que posso porém fiquei preocupada … grata obs meu filho está com seis meses…

  5. Claudia disse:

    Meu bebe fará 5 meses dia 15/12 e devera tomar a segunda dose da Pneumocócica 10-valente e anti meningococo c, e esta gripado, posso aplicar mesmo assim?

  6. Luana Brito disse:

    Olá, dei a vacina pneumo 13 (particular) quando minha filha tinha 5 meses e a clinica marcou mais 3 doses para serem aplicadas. Mas, por motivos de mudança e financeiros não dei as outras doses. Então, gostaria saber se ela pode tomar a 10 valente do SUS ?? se não puder, qual seria o novo esquema para agora que ela tem 12 meses?
    Ps. A pediatra já me disse que devo dar a 13 valente novamente, mas como moro numa cidade pequena que médico ganha comissão até em exames…tenho que recorrer a vocês !! Desde já agradeço…

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